Soren

Minha abobrinha morreu. E não foi uma morte qualquer: ele e o namorado se suicidaram. Disseram que foi motivado pelo atual cenário político, ou que foi um pacto de amor... As pessoas são capazes de dizer coisas horríveis e insensíveis sobre eventos que são incapazes de compreender. Em vez de ficar conjecturando por que eles se mataram ou como fizeram isso, prefiro me lembrar dos inúmeros momentos que tive com Soren quando ele estava vivo.

A primeira vez que vi Soren foi numa pastelaria na Ilha do Governador que vende pastel de jacaré. Ele estava tão ambiguo de gênero que me fez questionar internamente tal qual cis se era menino ou menina pra dois segundos depois jogar fora esse questionamento ridículo. Não é todo dia que se vê alguém pegar papéis de gênero, amassá-los e jogá-los na lixeira tão facilmente. Talvez eu tenha me apaixonado por Soren nesse dia.

Teve uma vez ficamos trancados dentro da minha casa e comecei a chorar por conta disso, aí Soren deu um chute, a porta abriu e fiquei feliz por uns tres segundos até me lembrar que a porta estava arrombada e começar a chorar novamente até ele dar um jeito de botar uma tranca.

Fomos ver Divertidamente no cinema e Soren tentou segurar o choro pra parecer viril até ele perceber que já estava todo mundo chorando (eu, por exemplo, já estava em lágrimas fazia duas cenas).

Estávamos numa festa junina do colégio do Christian e Soren queria usar uma blusa minha e pensou num plano besta aí empurrei ele pro banheiro e entrei junto e ele ficou horrorizado daí eu disse algo do tipo "de que adianta ser n-b se não podemos entrar no banheiro q quisermos?"

Me lembro de como ele me confortou todas as vezes que eu passava o dia chorando sem nenhuma razão.

Quando a drag favorita de Soren (Jinkx Monsoon) esteve no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, eu e Aurélio pagamos um ingresso extremamente caro pro Soren ter a chance de tirar foto ao lado dela e poder ver o show. Ele não aguentou três músicas, mas foi uma noite divertida.

Eu adorava ouvir Soren cantando por mais que ele fosse um perfeccionista do caralho e achasse q a voz dele era horrível (nunca foi). Também era divertido botar uns roques brasileiros pra tocar só pra irritá-lo (mas Aurélio pegou pesado uma vez e botou Elba Ramalho hahahahhaha).

Certa vez Soren jogou na taimelaine do twitter que estava a fim de ume namorade pro dia 12/06 e perguntei se dava pra estender o período até o meu aniversário (21/06). E foi assim que namoramos por pouco mais de uma semana. Nosso namoro consistiu basicamente de nós nos pegando, descobrindo nossos gêneros e uma maratona de Orange Is The New Black.

Aprendi com ele que existe uma brincadeira chamada fusca azul, que consiste em bater no coleguinha mais próximo caso um fusca azul seja avistado. Muitas vezes deixei ele me bater de propósito (sem ele perceber, claro) só pq ele parecia se divertir muito com isso.

Assim como mostrei Steven Universe pra Soren, ele me mostrou Doctor Who e me obrigou a maratonar a série nova todinha (na época não tinha eps do Capaldi ainda). Certa vez eu fiquei cansada de ver uns três eps de uma vez e ficamos discutindo brevemente até ele ter a ideia de me bater na bunda até eu mudar de ideia. Por conta disso descobri que curto uns tapas na bunda. Aurélio me contou que numa noite, ele, Soren e mais duas pessoas que permanecerão anônimas, fizeram um "workshop de tapa na bunda", que consistiu no Soren mostrar como é a batida perfeita nos glúteos das pessoas anônimas.

Sempre que possível a gente ficava nuns bares em Vila Isabel tomando coca-cola e comendo uns gurjões de frango. Nunca chegamos a ter um bar favorito, mas íamos mais num que ficava na esquina da Torres Homem com a Visconde de Abaeté.

Uma característica marcante de Soren é q ele realmente acreditava com uma determinação fora do comum que ganharia na loteria. Ele falava do bar de drag que ia fazer com o dinheiro e das viagens pelo mundo que faria com uma certeza ímpar. E todo mundo acreditava nele.

Soren nunca gostou da psiquiatra da UFRJ mas pelo menos uma vez subornei ele com coca-cola e uma barra de chocolate pra ele ir lá. E quando isso falhou eu levei ele no Beluga do Rio Sul, q tinha refill de refrigerante.

Enfim, este texto poderia enumerar todos os momentos que tive com ele mas não é esse objetivo, ou eu passaria a eternidade fazendo isso. O que eu quis mostrar é que, apesar dos inúmeros problemas dele, Soren sempre foi uma pessoa boa e carinhosa, que se importava mais com os outros do que consigo mesmo. Ele me apoiou sempre que precisei e tudo que fiz ao meu alcance pra tornar a vida dele menos miserável eu fiz. Não me arrependo de nenhum momento que passei com ele (exceto talvez de quando fomos comer um rodízio japonês em Vila Isabel, aquilo foi meu dinheiro mais mal gasto na minha vida).

Muita gente me perguntou o que poderiam fazer pra ajudar. Sugiro ajudar toda pessoa trans que aparecer pedindo vaquinha pra fazer as cirurgias necessárias ou comprar remédios. Doar roupas que vocês não precisam mais. Ajudar pessoas trans que vivem de arte. AJUDEM PESSOAS TRANS.

Já da minha parte vou tentar viver de uma maneira que o deixasse muito orgulhoso. Vai ser difícil mas eu tentarei.

Soren, eu deixo você partir.